Joaquim Candeias da Silva*

1. Identificação do local
    No decurso do levantamento documental que levei a cabo, há cerca de dez anos, com vista à dissertação de doutoramento sobre o período filipino, deparei-me com uma série de textos referentes a obras de engenharia hidráulica no Médio Tejo a montante de Abrantes, ordenadas por Filipe II (I de Portugal), ao longo dos anos de 1581-1582.
    O local de maior interesse apontado pelas fontes, também o mais intrincado problema a resolver no longo curso e onde a acção do grande engenheiro filipino Juan Baptista Antonelli mais incidia, era no chamado «Passo de Alfanzira», a duas léguas de Abrantes. O topónimo, porém, extinguira-se de todo na memória colectiva. Das pessoas a quem perguntámos por ele, ninguém o reconhecia. De todas as cartas topográficas compulsadas, nenhuma o mencionava.
    A partir de uma análise mais minuciosa das referências documentais, cheguei, porém, à conclusão de que a obra e o microtopónimo se deveriam localizar em território abrantino, algures numa zona ribeirinha entre Alvega/Concavada e Mouriscas, mais precisamente entre a foz do Rio Frio e a estação CF de Mouriscas, na margem direita do Tejo. E, a termos em conta tanto o esforço humano então requisitado como as avultadas somas investidas, dificilmente o tempo e a natureza poderiam tudo apagar. Alguma coisa teria de subsistir...
    Recorrendo de novo à Carta Militar de Portugal, na escala 1/25.000 (Folha n.0 322, ano de 1946), dos Serviços Cartográficos do Exército, rapidamente confirmei o sítio, pois lá vinha esboçada a configuração de um acidente não natural, um traçado em jeito de canal [Coordenadas de Gauss N - 047(a 049).775(a 777)]. E, deslocando-me propositadamente ao local, com vista ao seu reconhecimento no terreno (in loco), de imediato obtive a esperada (re)confitmação.
    Do facto dei então conhecimento verbal e particular a algumas individualidades, entre as quais o Sr. Presidente da Câmara, conduzi lá inclusivamente algumas turmas de Cursos de Património, não tomando eu, todavia, a iniciativa de qualquer medida oficiosa por escrito em viltude dos trabalhos que me absorviam e da dissertação académica que preparava, cujos conteúdos principais naquela altura convinha manter inéditos.
    Transcorrido algum tempo, defendida a minha dama ('tese"), e uma vez colocado nos escaparates o livro que foi a causa da descoberta e onde o assunto era pública e amplamente divulgadol, pensei que era chegada a altura de se fazer (mais) qualquer coisa, de concreto, em prol daquele nosso património arquitectónico e cultural. E, foi assim que, visando a sua valorização e salvaguarda, apresentei na sessão da Assembleia Municipal de Abrantes de 30 de Junho de 2000 uma Proposta de Classificação do imóvel, eventualmente de "interesse público". No essencial, é essa proposição que aqui se aduz.


O Canal Filipino em fotografia aérea e na Carta Militar 1:25 000

2. Um pouco de história — enquadramento 
    O sítio em questão localiza-se adentro do Tejo, a montante do Casal do Tejo e a jusante do Casal de Vale Covo, ambos na antiga vintena dos Cascalhos (freguesia de Mouriscas), onde também chamam o Cachão, por as águas do rio ali correrem com alguma pressão e ruído, entre densos fraguedos xistosos de extraordinária dureza. Geologicamente serão estes de origem pré-câmbrica, da chamada "série negra", e daí que nem as águas de milénios a fio tenham conseguido ainda rompê-los. A paisagem, que ali se estende em grande lastro, é por isso agreste e escalavrada; mas a morfologia e constituição do solo, se por um lado dificultava a navegação, por outro permitia a instalação de engenhos, que em determinadas épocas do ano aproveitavam a boa energia hidráulica para molinação.
    As primeiras notícias da existência de moinhos ou azenhas nestes sítios remontam aos finais do século XIV, aquando das primeiras concessões por D. João I de certos direitos e beneficios a Femand'Alvares de Almeida, vedor régio. E assim, em 1401, num aforamento de imóveis a seu filho Nuno Fernandes previa-se que os mesmos pudessem vir a passar a Diogo Fernandes de Almeida, irmão de Nuno, caso este não tivesse geração (Chanc. D João I, liv. 3, f. 15); em 1411 recebia o mesmo Diogo a mercê da renda de um quarto dos "bocais" de Alfanzira — espécie de canais de água para as azenhas (Ver Doc. 1); e, a 26.12.1431, por ocasião do enlace matrimonial do dito Diogo Fernandes com D Maria de Sousa, dama na corte, doou D João I aos noivos, como dote de casamento em suas vidas, diversos bens na área de Abrantes e entre eles muito concretamente os direitos reais dos moinhos de Alfanzira, que então andavam na mão de um Diogo Gomes da Silva:
    «Nós, Dom João (...) damos aos sobreditos (...) o nosso reguengo de Santa Margarida [da Coutada] e d 'Amoreira e o direito dos nossos moynhos de Rio de Moynhos e os d'Alfanzira que de nós trazia Diogo Gomes da Silva, que he em termo d'Abrantes, [para] que elles os tenham de nós em suas vidas delles ambos e cada hum delles (...) Dante em Almeirim, 26 de Dezembro de 1431 [da era de César, -38 = 1393 da era de Cristo]. Diogo de Figueiredo a fez. Lopo Afonso, público notairo [geral da corte], que esta fez escrever [TT, Chancelaria de D João 1, liv. 4, fl. 125, e Gavetas, XX, 8-5].
    Sabemos mais que chegaram a existir ali, pelo menos, seis azenhas, pelo século XIX.
    Mas, a zona, essa era habitada desde tempos pré-históricos: é hoje bem conhecida, nas proximidades (limite do concelho de Mação), a Anta da Foz do Rio Frio, valor concelhio pelo Dec.-Lei 129/77; estão identificados por ali, em ambas as margens, testemunhos de ocupação romana, porventura pequenos casais do Baixo-lmpério (estações de Vale Covo, Monte Morgado e Sr.a da Guia)2; e havia na mesma área e desde tempos imemoriais, logo a montante, a Barca de Bandos, que fazia a transposição viária da Beira para o Alentejo, entre o sítio de Vale Covo e a S.ra da Guia. Havia também diversas pesqueiras, a da Barca (de Bandos), a da Figueira e da Boca da Ribeira (de Rio Frio), do Paredão, entre outras, todas na margem direita (freg.a de Mouriscas), e a revessa do Canto do Inferno (Cachão, Concavada), na margem contrária. E temos ainda os velhos caminhos de sirga ou sirgueiros (corredores laterais de passagem, para que através deles pudessem os barcos ser puxados por cordas), que embora eventualmente do tempo de Antonelli, poderão alguns decalcar trilhos anteriores.
    Relacionada com este Canal filipino, estaria certamente a ermida de N.a Sr.a da Guia (hoje na freguesia de Concavada), que lhe fica quase defronte, num terraço da margem Sul do Tejo com excelente posição e visibilidade. Esta, de acordo com uma lápide existente numa das paredes exteriores, à entrada, foi mandada edificar em 1626, por Lourenço Godinho e sua mulher Isabel Freire, em propriedade sua e provavelmente para cabeça de um Morgado que constituiriam com as suas fazendas. Mas o culto parece ser bem mais antigo, prendendo-se com a devoção secular de barqueiros, pescadores e calafates, especialmente dos primeiros, que faziam o transporte de mercadorias entre Lisboa e Alvega. Reza a lenda que a imagem da Virgem foi achada certo dia dentro de um poço com água, com a particularidade de a madeira e vestes se encontrarem completamente secas (pelo que o elemento líquido em nada a afectava). Daí que os populares se habituassem a invocar a Senhora, mormente em tempo de cheias, tempestades e nas longas viagens de água abaixo ou água acima, pois acreditavam que Ela os guiava nos momentos mais dificeis, livrando-os de afogamentos. E ao passarem defronte da ermida, descobriam-se e rezavam, pedindo protecção:


Ermida de N.a Sr.a da Guia

— «Nossa Senhora da Guia / que estais ao pé do Tejo / sempre que por 'qui passo / tiro o meu barrete e rezo».
«Na freguesia de Alvega, termo da mesma nobre vila de Abrantes, se vê o santuário da Virgem Nossa Senhora da Guia. Está este situado além do Tejo para a parte do Oriente, em as margens do mesmo Tejo, mas em sítio tão alto e eminente que não tem que temer as cheias do rio, porque não poderá lá chegar, por maior que seja a inundação. Esta ermida é muito linda e de galante arquitectura, é rotunda e fechada de meia laranja com sua lanterna, e por remate uma grimpa defèrro ou de latão para mostrar o curso dos ventos; por fora em distância ou com a largura de vinte palmos corre um alpendre, como claustro cercado de colunas de pedra lisas; e entre coluna e coluna, distância cousa de OUÍros vinte palmos, vão grades de ferro, não só para ornato e encosto dos devotos que ali concorrem Diz dela o Santuário Mariano (VII, liv. 111, tít. XII, p. 345), de 171]: mas também para encosto ou reparo seguro da mesma ermida. A porta desta lhe fica para o Ocidente. Tem muitos ornatos e tudo o que é necessário para o culto divino, e tudo está com muita perfeição e asseio, em que se vê o zelo e a devoção do fundador.


    A imagem da Senhora da Guia está colocada no altar„ que é um só. E esta santíssima imagem perfeitissimamente obrada, de escultura de madeira primorosamente estofada, e também o Menino Deus que leva pela mão, o qual terá pouco mais de dez palmos e a Senhora tem três e meio; ambas as imagens têm coroas de prata e à Senhora lhe põem por ornato um rico manto. E esta santíssima imagem de grande veneração e buscada de muita gente, que com grande devoção concorre em romaria a pedir à Senhora os guie pelo caminho seguro da salvação. Obra muitos milagres e maravilhas, e assim o estão publicando os muitos sinais e memórias que lhe Ofereceram os seus devotos para perpétua lembrança, os quais se vêem pender das paredes daquele santuário.
    Quanto à origem e princípios deste santuário, o que consta com certeza por uma escritura é que, pelos anos de 1626, mandaram fazer Lourenço Godinho e sua mulher Isabel Freire Pimenta em aquela freguesia de Alvega, aonde tinham uma quinta, aquela ermida, em distrito seu, pela muita devoção que tinham com a Rainha dos Anjos, e nela colocaram uma imagem sua que também mandaram fazer com a invocaçâo de Nossa Senhora da Guia, para cabeça de um Morgado que instituíram das fazendas que tinham por aquelas partes; do qual morgado é hoje administradora Dona Leonor Coutinho do Avelar, viúva do desembargador Francisco Soares Galhardo e neta do sobredito instituidor. Teve esta ermida muitos anos capelão, mas já hoje lhe falta, e assim os criados da administradora são os que tratam da limpeza e asseio daquele santuário da Senhora. As casas daquela quinta e morgado ficam distantes da ermida da Senhora cousa de um tiro de espingarda.»
    A planta do edifício é circular, com cobertura cupulada, forma bastante rara na arquitectura portuguesa, mas simples e de pequenas dimensões, aproximando-se do tipo de arquitectura popular. O portal, rectangular, é encimado por um brasão da família construtora e ladeado simetricamente por dois pequenos cruzeiros incrustados na parte superior, havendo ainda no exterior um pequeno púlpito, este nitidamente mais tardio (Veja-se a referência que lhe faz a História da Árte em Portugal, ed. Alfa, 1986, VIII, pp. 22-23). A imagem da Senhora é ainda hoje de grande veneração popular, com festa e romaria na segunda-feira de Páscoa, que inclui procissão, lanche de farnéis partilhados e bailes de roda...
    E, sobre Alfanzira, pouco mais se alcança. As Memórias Paroquiais de 1758 omitem o topónimo e quase nada esclarecem sobre o Rio, limitando-se o cura, José de Figueiredo Roseiro, a aduzir o número total dos casais ou sítios da freguesia e a informar vulgaridades: «Mouriscas] não hé lugar, nem Aldeya, mas tudo são cazaes espalhados por quarenta e sinco sitios difrentes, huns em montes, outros em lugares (...)»; «(...) que esta freguezia confina com o Rio Tejo (...)»; e «que pello espaço em que esta freguezia confina com o Tejo não entrão nelle Outros rios»3.

3. O projecto e a acção de Antonelli
O que era então o "Passo" ou Canal filipino de Alfanzira? Em que desenrolaram os trabalhos?
Estava-se em 1581, a I de Abril (que então ainda não era dia de mentiras, serviço. Nessa data, dos seus paços de Tomar, fez o fundador da chamada publicar o primeiro despacho incumbindo Antonelli de reconhecer todo o de Abrantes, até à velha Alcântara, para a navegabilidade do mesmo, ou  optimizá-la. De imediato o dedicado e competente engenheiro napolitano Apoiado na experiência de três excelentes barqueiros abrantinos, partiu dita povoação fronteiriça; e, de tal modo se desempenhou da missão, que mês e meio depois já estava de regresso a Tomar, com um exaustivo relatório - Relacion de la navegacíon de Tajo desde Abrantes hasta Alcántara— que parece ter deixado o rei muito agradado.