José Martinho Gaspar (Texto)*

Fernando Correia (Fotografias)**

 

"Parece que foi ontem... parece que foi nunca".

Eduardo Lourenço

 

    A frase de Eduardo Lourenço é uma bela porta para o corredor de memórias que nos leva à Primavera de 1974. E o "onde é que estava no 25 de Abril?" vem ao de cima e encontra com facilidade um imaginário retocado no decurso de trinta escassos/longos anos. A pintura que cada um de nós compôs, de si próprio e dos outros, mostra heróis e retrata um momento mágico. As palavras, para podermos adjectivar essa magia, só as desencantamos na lavra de um poeta.

 

"Não anoiteceu. Anoitecia Naquela noite fria.

Mas quando a manhã abriu,

A todo o mundo o seu véu,

 

Ninguém disse que ele nascia

...Que o dia já nasceu".

 

 

José —Alberto Marques

    Estas páginas, apesar da auréola criada ao longo de três décadas, têm como finalidade contar o que foi a grande manifestação do | .0 de Maio de 1974 em Abrantes. Se a República foi implantada por telégrafo a partir de Lisboa, 0 25 de Abril soou na rádio, cresceu nos jornais, ganhou forma na televisão e— em especial no interior— passeou vaidoso pelas ruas a I de Maio.

    O Correio de Abrantes, em subtítulo, destaca a "dignidade e exemplar civismo" com que decorreu a manifestação do | .0 de Maio. O mesmo órgão da imprensa escrita informa que "Abrantes faz um desfile apoteótico como jamais fizera. Mais de 5000 pessoas" 1. Aquele que se assumiu, no final da década de sessenta e início da de setenta, como destacado arauto da contestação ao regime marcelista, com um jornalismo de inequívoca qualidade, capaz de contornar com perícia algumas barreiras censórias2, deu especial atenção a toda a envolvência do 25 de Abril, nomeadamente à manifestação do 1º de Maio. Eurico Heitor Consciência, director deste jornal até Março de 1974 reconhece que o mesmo desempenhou um papel importante ao nível da "abertura de mentalidades e foi uma pedrada no charco daquele tempo". O posicionamento atrevido do Correio de Abrantes, terá levado inclusivamente ao afastamento de Eurico Consciência do cargo de director do jornal3.

     "Inequívocas provas de civismo deram todas as pessoas que se concentraram no largo da Feira, que, em incontida alegria, formaram uma multidão de uma grandiosidade perfeitamente extraordinária. Bandeiras Nacionais, dísticos que nos diziam o calor sentido, dos jovens, pessoas idosas, rapazes, raparigas, todos manifestantes encheram as ruas, cantando com a presença demonstrada de uma deliciosa satisfação''4

    O Jornal de Abrantes conta que, "Cumprindo as determinações transmitidas pela Junta de Salvação Nacional, esta manifestação, festejando o Dia do Trabalhador e apoiando as Forças Armadas, foi uma autêntica e extraordinária demonstração de civismo. Como estava anunciado, pelas 15 horas, na Esplanada Dr. António Augusto da Silva Martins, grande multidão ali se concentrou, partindo em cortejo pelas ruas da cidade até à Praça do Município, vendo-se, por todo o lado, inúmeros dísticos e cartazes com frases alusivas ao momento. Ali chegado o desfile, a praça foi pequena para conter os milhares de manifestantes"5.

 

 

    As fotografias de Fernando Correia e as imagens captadas por Carlos Madeira permitem-nos ler algumas das frases e palavras de ordem presentes nos cartazes e faixas exibidos durante esta jornada: «Liberdade», «Fim da Guerra Colonial», «O Povo Unido Jamais Será Vencido», «Tramagal Está Com as Forças Armadas», «Queremos Uma Escola Livre e Popular», «Jovens de Abrantes [. . .]

     Que a Sua População Saiba Ser Digna do Momento Presente» «Viva Portugal [. . .]». Quanto a símbolos, destacavam-se várias bandeiras nacionais (uma de grandes dimensões) e uma bandeira do PCP com dizeres.

     Parece ser consensual o papel dos estudantes na organização da manifestação, nomeadamente de Jorge Lacão e Geirinhas Rocha. Mário Pissarra reconhece, porém, que a determinação da chefia do cortejo gerou alguma controvérsia: "Só me lembro de ir ter com os alunos dos cartazes e de lhes dizer para irem para a cabeça da manifestação, pois tive a sensação que muitos dos que nada havia feito queriam ganhar protagonismo''6

     A primeira paragem do cortejo fez-se no Jardim da República, junto ao monumento aos mortos da Grande Guerra 1914-1918. "A nota dominante foi dada pela juventude que encabeçava a multidão imensa. Muitos rostos com lágrimas entoaram o hino da nossa libertada República acompanhados por milhares de bocas"7.

 

 

"Ali dissemos não passa!

E a reacção não passou.

Quem já viveu a desgraça

Odeia a quem desgraçou

José Carlos Ary dos Santos

 

    Na Praça do Município, os manifestantes detiveram-se para ouvir vários discursos, proferidos a partir da varanda da Câmara Municipal: “[... ] foi dada a palavra aos Srs. Dr. Orlando Pereira, Dr. Coreia Semedo, Dr. Eurico Consciência, Prof. José Alberto, estudantes Jorge Lacão e Geirinhas Rocha. Todos os oradores focaram o momento que vivemos, alertaram os portugueses para uma tomada de posição em prol dum Portugal Maior e Livre, e foram unânimes em prestar o seu agradecimento às Forças Armadas. Em nome destas falou o Tenente-Coronel Neves, 2.º Comandante do R. I. 2 [...]8. Todos os discursos foram interrompidos por aplausos efusivos, que brotaram de uma multidão entusiasmada e esperançada na construção de um "Portugal melhor"9

     Também em relação a quem deveria discursar na varanda da Câmara Municipal, não terá havido consenso e, igualmente nesta situação, sem que tal tenha passado para a multidão ou para a imprensa, ter-se-ão chocado interesses diversos. José — Alberto Marques diz-nos, porém, que "tudo se compôs, discursando uns e outros, sublinhando que a dignidade de alguns auto-excluídos mais abrilhantou aquele dia de sol [...]10.

     O jornal Nova Aliança, que também dá destaque de primeira página à "[...] magnífica jornada vivida pelos Abrantinos no 1.º de Maio, Dia do Trabalhador", não deixa de patentear o seu cunho reaccionário à época. Os prelectores da Praça Raimundo José Soares Mendes, afirma-se, "Focaram todos a liberdade conquistada e a queda de um regime opressor. Nem um só, no entanto, usou da palavra para falar dos vivos (ou muito pouco): todos se referiram aos «mortos» (fascistas). Em oradores de tanta craveira intelectual era de esperar uma exposição mais construtiva e sobretudo uma explicação do que é a verdadeira liberdade e a verdadeira democracia [...]"11.

     De seguida, o rio de gente que inundou Abrantes neste 1.º de Maio de 1974 escorreu pelas ruas e, de sorriso nos lábios, desaguou no Regimento de Infantaria 2, onde foi agradecer aos militares o papel determinante que tiveram no 25 de Abril. Neste percurso, em que a coluna se alongou, as imagens permitem que se perceba o quão diversificada era a gente que integrava a manifestação. A irreverência dos rapazes guedelhudos e das raparigas de mini-saia misturava-se com o misto de esperança e alívio que marcava a expressão de populares provenientes das zonas rurais. Ao som da Banda de Rio de Moinhos, gente de todas as idades e condições uniu-se para festejar o novo regime.

     A noite, realizou-se um jantar no restaurante Vera Cruz, onde, ao que se conta12, mais do que confraternizar, algumas das personalidades presentes trocaram recados e acusações. Esses são, porém, elementos da outra História do 1.0 de Maio de 1974...

 

"Só nos faltava agora

que este Abril não se cumprisse.

Só nos faltava que os cães

viessem ferrar o dente          

na carne dos capitães que se arriscaram na frente".

José Carlos Ary dos Santos

 

"E nós, 

todos nós, chegámos a pensar

que éramos maiores do que somos".

José Gomes Ferreira