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As pessoas gostam de fazer anos e, quando têm possibilidades, festejam a data. Fazer anos é sempre uma forma de congratulação pelo passado vivido e de votos pelo futuro. O mesmo se passa com as instituições. Ao longo destes 50 anos, o velho Liceu transformou-se. Mudou de edifício - da antiga casa Carneiro junto ao castelo para as instalações do colégio La Salle. Sofreu remodelações nas instalações e está hoje irreconhecível, pois só o exterior do corpo central – antigas camaratas, refeitório, sala de professores e capela – se mantêm. Não foi só o edifício que se alterou. Foi-se renovando a sua verdadeira vida: os alunos, os professores e restantes funcionários; largos milhares de alunos animaram e dignificaram esta escola. Trocaram-lhe o nome: Secção do Liceu de Santarém, Liceu Nacional de Abrantes, Escola Secundária n.º2, Escola Secundária Dr. Manuel Fernandes, Escola Secundária Dr. Manuel Fernandes com 3.º Ciclo, Agrupamento Dr. Manuel Fernandes. Ao longo de 50 anos, muito mudou na educação em Portugal. E isso repercutiu-se naturalmente também neste estabelecimento de ensino. A vida de uma escola não depende só de si e dos seus alunos. Os programas e os normativos legais que a enquadram são-lhe impostos pelo ministério e por outras instâncias educativas.

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Finalistas 1972 – 1973

O Liceu nasce quando a escolaridade básica, universal e obrigatória era de seis anos. Com a Reforma Educativa do Prof. Veiga Simão, todos os municípios tiveram de criar uma Escola Básica (ciclo) e garantir, no caso do ensino presencial não ser possível, o ensino à distância, mais conhecido por Telescola. O ensino liceal era a via exclusiva de acesso ao ensino superior. À época, superior era sinónimo de universitário. A par do ensino liceal existia o ensino secundário profissionalizante em escolas técnicas, mas estas visavam formar trabalhadores especializados (eletricistas, torneiros mecânicos, empregados de comércio, etc.) e, mediante um 6.º ano(secção), a entrada no Ensino Médio (Instituto Comercial, Industrial). O nascimento do Liceu permitiu assim que um grande número de alunos da região tivesse acesso ao ensino universitário. A escola industrial já existia, os colégios La Salle e de Fátima já existiam mas, por serem particulares, tinha de se pagar e o ensino liceal público só existia nas capitais distritais. Muitos jovens abrantinos e dos concelhos vizinhos tiveram aqui a possibilidade de entrar no ensino superior. Nos anos iniciais do Liceu, era comum haver estudantes destes concelhos a viver em casas particulares e virem aos domingos de cabaz aviado para tornar mais suportável as despesas. Normalmente o alojamento era em casa de alguém conhecido da família lá da terra.

A expansão do ensino secundário começou a crescer de modo controlado, mas à medida que os alunos afluem às escolas, a falta de professores habilitados e de instalações era uma constante em todas as escolas. À falta de instalações respondia-se com pavilhões pré-fabricados. O liceu tinha dez instalados num espaço conquistado aos anexos do jardim do castelo e não possuía qualquer instalação para a prática do desporto. Com o bom tempo, as atividades desportivas decorriam onde hoje é o parque em frente ao café Alcaide. Os momentos mais críticos, quer em relação aos professores quer em relação às instalações, surgem a seguir ao 25 de Abril de 1974. Dá-se uma verdadeira explosão escolar, um crescimento descontrolado. Houve um liceu programado para 1200 alunos e abriu com 3660. No último ano que o liceu esteve no edifício Carneiro, o número de alunos passou de 800 para 1200 e no ano seguinte entrou em funcionamento o ensino noturno. O curso noturno, por ser liceal, permitiu que muitos alunos se matriculassem para frequentar o ensino superior. Os cursos noturnos chegaram a ter cerca de 200 alunos matriculados. Nesta fase da sua vida, esta escola resolveu o problema das instalações com facilidade ao mudar para o colégio La Salle, mas as questões da falta de professores, das contestações dos alunos e dos pais, das greves, etc., também afetaram profundamente o seu funcionamento.

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Ano 1967 – 1968 / 1º e 3 anos 

A unificação dos programas de 7.º, 8.º e 9.º ano fez com que fosse indiferente frequentá-los no ciclo, na escola industrial ou no liceu. Esta homogeneização que mais tarde se tornou extensiva ao ensino secundário, num certo sentido descaracterizou o liceu. Perdeu a exclusividade de acesso ao ensino superior, perdeu parcelarmente as características dos seus alunos (um certo elitismo e origem urbana) e, por consequência, uma maior exigência e rigor ao nível de ensino e das aprendizagens. Se num primeiro momento se procedeu à liceização do ensino, isto é, a massificação de uma escola pensada e praticada para as elites, num segundo momento, perante a incapacidade de construir uma escola de massas e a impossibilidade de manter o rigor e a exigência num ensino para todos, deu-se o que poderíamos chamar, a invasão do básico e das suas facilidades para o secundário. O ensino básico passou a ser de 9 anos. A longa ausência de controlo externo das aprendizagens – a inexistência de exames – facilitou este estado de coisas. A burocratização crescente da função docente e a desautorização dos professores que iam buscar a sua autoridade a uma razão pedagógica, agora esmagada por imposição de uma autoridade inspirada no modelo judicial, agravaram a situação. Ao obrigar todos na escola, alguns a contra gosto, muito do que se passava na rua entrou na escola com os novos alunos. Na comemoração dos 50 anos do liceu estão presente estas inúmeras dificuldades, lutas, vitórias e derrotas. Muitos esforços perdidos e alunos que não tiveram quem os ajudasse a ir mais além. Ao mesmo tempo, são muitos os alunos que só alargaram os horizontes para além do «buraco» da sua aldeia ao frequentar a escola que lhes possibilitou a vinda diária para a cidade e o contacto com realidades muito distintas da sua terrinha e da sua vida familiar. Não foi fácil para quem trabalhou no velho liceu e teimava em lutar pela exigência e rigor, assistir à sua ruralização crescente e descaracterização da escola.

A vinda para o Liceu do 5.º e 6.º ano de escolaridade, já na fase de implosão do sistema educativo, isto é, da diminuição crescente de alunos e da aflição dos professores de falta de horário, bem como a formação dos agrupamentos, é uma nova etapa na história do velho liceu que comemora os 50 anos. Se é verdade que anexando níveis de ensino e estabelecimentos, cujos professores e escolas têm culturas e auto-imagens diferenciadas, se minimizam problemas de logística e económicos, não é garantido que em termos pedagógicos o saldo seja positivo. Trouxe naturalmente novas dificuldades e novos desafios. Um dos desafios é a escola descobrir /inventar e construir uma identidade diferenciadora das outras. Há apostas que, tudo indica, vão nesse sentido. A municipalização anunciada é outro desafio a enfrentar. A territorialização quanto à origem dos alunos é um elemento estratégico para a planificação do futuro, mas passível de várias críticas.

Então o que comemoramos nos 50 anos do liceu? E quem deve comemorar? Ao longo dos últimos 50 anos esta instituição procurou fazer o melhor pelos seus alunos. Num certo sentido frequentaram escolas diferentes porque o liceu foi uma realidade viva e dinâmica que teve de se adaptar e transformar em função de múltiplos fatores. Todavia, os que aqui estudaram ou trabalharam estão unidos porque o lugar onde se cruzaram foi o liceu. A própria cidade e região devem associar-se a estas comemorações, pois esta instituição foi criada e trabalhou para lhe prestar um serviço educativo e que se esforçou por ser de qualidade. Como as pessoas, as instituições não são perfeitas. Mas celebremos fundamentalmente as suas conquistas e contribuições.

Parabéns ao liceu e que por muitos e longos anos continue a prestar um serviço de qualidade aos futuros alunos.

Mário Pissarra in Jornal de Abrantes 2017-10-04

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