A Gruta de Avecasta e a sua envolvente (dolina e cabeço) foi ocupada como área de habitat durante uma longa diacronia, remontando ao Plistocénio (Paleolítico Médio e Superior), com ocupações do Neolítico final, Calcolítico inicial, Idade do Bronze, Segunda Idade do Ferro, Romano e Medieval. Nesta longa diacronia, é particularmente relevante a ocupação desde o Calcolítico ao período Romano, sucedendo-se as evidências de exploração metalúrgica do cobre, estando presentes todas as etapas da cadeia operatória.

 As características sedimentares registadas na Gruta da Avecasta, ao nível da qualidade das argilas em associação ao micro-clima húmido e à longa série sedimentar fina (semelhante à lacustre), conferem uma conservação excecional aos depósitos aqui conservados, tendo sido exumado um riquíssimo conjunto de micro e macrorrestos paleobotâncios e faunísticos. O potencial paleoambiental deste conjunto foi devidamente evidenciado pelo trabalho desenvolvido pela equipa de investigação responsável.

A Gruta da Avecasta assume um valor de raridade em termos de preservação paleoambiental, assumindo também grande interesse científico para o conhecimento das diversas comunidades humanas que usaram aquele local como habitat.

 

 

 Qual a importância de Avecasta no panorama arqueológico português?

Para o arqueólogo José Eduardo Mateus, a Gruta da AVECASTA é um sítio arqueológico único no país; O seu enorme interesse arqueológico resulta da conservação excecional das estruturas das várias aldeias sobrepostas, desde há mais de 5 mil anos, cujos vários horizontes de ocupação (solos, pavimentos, alicerces, muros, lareiras, outras estruturas domésticas, muito espólio utilitário e dejetos) foram sucessivamente selados e preservados por camadas de argila fina. A deposição desta lama, proveniente da erosão dos solos do cabeço, processo desencadeado pelos próprios ocupantes de então, obrigou à periódica reconstrução dos pavimentos de terra batida ou de empedrado, progressivamente mais acima no preenchimento sedimentar da cavidade, selando intactos os solos de ocupação anteriores. É ainda a esta “lama” que se deve a extraordinária conservação dos materiais, envolvidos numa matriz sedimentar muito pouco arejada, sempre húmida e geoquimicamente neutra.

 

 Estas raras condições – que forçosamente terão que ser potenciadas por uma poderosa arqueologia multi-disciplinar, atenta a todo o tipo de vestígio (grande, pequeno, micro, artefactual, biológico, geológico, químico) – poderão permitir uma reconstituição rigorosa e nova do espaço de habitat e do modo de vida doméstico destas antigas populações do remoto Portugal. Por outro lado, a óptima preservação dos materiais de origem orgânica (ossos, conchas, sementes, carvões, grãos de pólen e outros micro e macrofósseis) viabiliza o estudo da evolução da ligação ecológica destas comunidades à paisagem envolvente e dos seus padrões de exploração e ruralização do território.

 

Finalmente a gruta preserva na “grande sala”, mais de 30 metros de sedimentos grosseiros e argilosos depositados ao longo de mais de 100 mil anos que poderão registar a história natural e humana dos períodos remotos da Idade do Gelo (Pleistocénico).

 

 urante os trabalhos de recolha dos anos 80 e 90 do século passado estiveram envolvidas equipas de arqueólogos, no entanto quase nada ainda se conhece sobre as épocas mais remotas, correlativas das cascalheiras profundas, no entanto há indícios pela presença de indústria de pedra lascada do Paleolítico Superior (de há cerca de 20 mil anos) ou mesmo do Paleolítico Médio (de há mais de 40 mil anos) de que o sítio teria sido ocupado nessas épocas (com vestígios muito profundos de difícil acesso, por enquanto). Sobre este conjunto de depósitos muito antigos existem quase 5 metros de argilas mais recentes (do Pós-Glacial) que “embalam” estruturas de antigas aldeias. As fases mais importantes de ocupação da gruta serão as datáveis do Neolítico (há cerca de 6 mil anos) e da Idade do Cobre (Calcolítico,  há cerca de 4 mil e quinhentos anos). A análise microscópica do pólen preservado nas lamas (indicando pastagens e culturas agrícolas), os ossos dos animais domésticos, a profusa olaria, atestam a existência de um povoado que se prolongaria para fora da Gruta, rodeado de um espaço rural importante. Há ainda a salientar a presença de fornos de fundição de cobre que nos elucidam sobre as mais antigas técnicas da metalurgia. As ocupações continuam durante a Idade do Bronze (há mais de 30 séculos) e na Época do Ferro. Outra fase interessante é a da Época Romana. Nessa altura a gruta parece ter sido uma instalação de tipo industrial provavelmente associada à fundição do ferro. Há indícios de grandes paredes de pedra vã e telhados, talvez cobrindo parte da dolina (a depressão externa de acesso à Gruta que resultou do abatimento de parte de um antigo tecto). Há ainda pavimentos de empedrado e paliçadas. Finalmente encontram-se vestígios medievais. Nos últimos 500 anos a gruta está parcialmente abandonada. Fazemos notar que embora se tenham realizado cerca de 6 campanhas de escavação por nós dirigidas, ainda apenas se vislumbra a ponta do grande “iceberg” de memórias enterradas.

 

A importância da classificação do sítio arqueológico

 A classificação de um sítio com esta gigantesca informação sobre o passado foi imprescindível. Em primeiro lugar o reconhecimento da importância do sítio que embora não deixe de ser propriedade integral dos seus legítimos donos passa assim a ser também um bocadinho de todos nós, no sentido em que lá reside parte importante da nossa identidade coletiva remota. É também a única forma de garantir na lei que o legado enterrado que aí se encontra, e que certamente demorará muitos séculos a estudar e valorizar por muitas gerações, será preservado, dado que passará a ser legalmente necessário avaliar e aprovar qualquer acção de gestão / alteração do sítio. Só o reconhecimento público poderá propiciar desenvolvimento.

 

 Em 2017 recomeçaram os trabalhos arqueológicos mais uma vez sob a responsabilidade de José Eduardo Mateus e Paula Queiroz, Investigadores da TERRA SCENICA e do Centro de Ecologia Aplicada Professor Baeta Neves (CEABN), Professores convidados dos mestrados do IPT e UTAD (Arqueologia Pré-Histórica e Arte Rupestre; Técnicas de Arqueologia)

 Texto: José Eduardo Mateus, Paula Queiroz

 

 

 

 

 

 Entrevista ao Dr. Eduardo Mateus cedida por Região do Zêzere

https://www.youtube.com/watch?v=XgSfVjPomH4

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